Poema Conta-gotas
Alessandra Amantea
Se meu sonho não é utopia,
alcanço nos versos
pequenos milagres
A posteriori,
pela força do acaso:
a verdade que não há
A sensação pós-parto-verbal,
Gerando silêncio não-calado
No acaso dos acasos
Reencontro a semente
Que com vento alcançou voo livre
Sem meta minha
Para justificar-lhe o caminho
A metonímia metafísica
do verso para nada
O poema sem métrica,
Sem método,
alcança mais
pela não-obviedade
e respinga cantos inabitáveis da alma
Já não pesa o labirinto,
pois chegar
pode ser mito;
meta sem logro
Descobrirei
em cada caminho sem chegada,
o sabor presente
O presente é o que temos…
O passado terminou seu curso.
E o futuro? Quem garante?
Talvez não haja um pote de mel por trás do arco-íris
Mas eu, na tentativa de abelha,
Busco a alquimia perfeita
na oferta da flor
Ainda que minha produção de doçura seja irrisória,
sigo a metafísica dos pequenos milagres
de alcance mínimo…
Da soma das gotas
a Unidade se manifesta…
E a finitude passa a ser
a gota concluída: transição para o eterno.
A eternidade:
híbrido de vida e morte…
Gotas vertem poesia
até se esgotarem em silêncio…
O excesso se esvazia…
o vazio se preenche
e a ex-gota, agora, saliva
As gotas começam a sofrer mutação de cor e densidade,
ganhando aspecto de tinta.
Há na proximidade, assim como na distância,
A distorção da imagem
De onde enxergarei, então?
Se algumas gotas de cor primária,
ainda impõe a incoerência da pintura…
Falha técnica
ou ilusão propositada?
O que acontece se viro o frasco de gotas coloridas?
Hei de tornar-me camaleão ou pirulito?
Ainda não enxergo…
De onde enxergarei?