Luz

•Outubro 7, 2009 • Deixe um comentário

Luz

Alessandra Amantea

Quando o passado entra

pela janela da memória,

a sensação de outrora volta

e fica ali alumiada

 

A compreensão pela distância

do pretérito interrompido,

revela o que não enxergara

quando os olhos espreitavam

o presente desprovido

de para-além do outro lado

 

O outro lado

continua lá…

Como clarão de estrela

que brilha longe

sem mais estar

 

Num ponto passado de luz qualquer,

o outro lado

continua nu…

 

O outro lado

ali

aliado

Dois pontos de luz

sobre a ponte do tempo

 

O outro lado,

calado, continua …

A Presença

•Setembro 27, 2009 • Deixe um comentário

A Presença

Alessandra Amantea

 

Deparei com a borboleta

sabendo que aquela visita

não havia de ser em vão

 

Um sorriso na face

ao reconhecer no inseto,

minha presença calada e observadora,

porém, quase sem utilidade

 

Até que um anjo

me apontou no inseto

a sorte certa…

 

Por que não voava dali, a borboleta?

Até quando suas asas seriam os braços estendidos do Cristo crucificado?

Quando suas asas ganhariam força e leveza

para ascendê-la aos céus?

 

Asas sem voo

Poeta sem versos

Artista sem inspiração

Angústia das asas atadas…

Até quando borboleta?

A condição inesgotável da alma

•Setembro 16, 2009 • Deixe um comentário

A condição inesgotável da alma

Alessandra Amantea

 

Quando sobra alma,

não há por que vendê-la

senão doá-la a todo instante

 

Na condição de erva daninha,

por mais que a arranque bruta, brota outra

alma sem cicatrizes…

 

Renovada alma,

sem passado e memória

que a impeçam de florescer

a nova tentativa verde

Poema Conta-gotas

•Setembro 14, 2009 • Deixe um comentário

Poema Conta-gotas

Alessandra Amantea

 

Se meu sonho não é utopia,

alcanço nos versos

pequenos milagres

 

A posteriori,

pela força do acaso:

a verdade que não há

 

A sensação pós-parto-verbal,

Gerando silêncio não-calado

No acaso dos acasos

 

Reencontro a semente

Que com vento alcançou voo livre

Sem meta minha

Para justificar-lhe o caminho

 

A metonímia metafísica

do verso para nada

 

O poema sem métrica,

Sem método,

alcança mais

pela não-obviedade

e respinga cantos inabitáveis da alma

 

Já não pesa o labirinto,

pois chegar

pode ser mito;

meta sem logro

 

Descobrirei

em cada caminho sem chegada,

o sabor presente

 

O presente é o que temos…

O passado terminou seu curso.

E o futuro? Quem garante?

 

Talvez não haja um pote de mel por trás do arco-íris

Mas eu, na tentativa de abelha,

Busco a alquimia perfeita

na oferta da flor

 

 

Ainda que minha produção de doçura seja irrisória,

sigo a metafísica dos pequenos milagres

de alcance mínimo…

 

Da soma das gotas

a Unidade se manifesta…

 E a finitude passa a ser

a gota concluída: transição para o eterno.

 

A eternidade:

híbrido de vida e morte…

 

Gotas vertem poesia

até se esgotarem em silêncio…

 

O excesso se esvazia…

 o vazio se preenche

e a ex-gota, agora, saliva

 

As gotas começam a sofrer mutação de cor e densidade,

ganhando aspecto de tinta.

 

Há na proximidade, assim como na distância,

A distorção da imagem

De onde enxergarei, então?

 

Se algumas gotas de cor primária,

ainda impõe a incoerência da pintura…

Falha técnica

ou ilusão propositada?

 

O que acontece se viro o frasco de gotas coloridas?

Hei de tornar-me camaleão ou pirulito?

 

Ainda não enxergo…

De onde enxergarei?

Parte II- Pés

•Agosto 26, 2009 • Deixe um comentário

Parte II- Pés

Alessandra Amantea

 

Os pés distanciam

o que a alma já distanciara

 

Os pés: encontros e separações

 

E se um dia, cada pé criasse autonomia?

Para onde levariam o corpo?

O pé esquerdo permaneceria à esquerda?

E o direito ladeado ao outro?

 

De pé, aplaudo o corpo acordado:

Mais um dia para seguir em frente,

sem saber até quando…

 

Os pés são as asas de quem não voa…

Enquanto der pé é raso;

Enquanto der pé é pouco pra poeta

 

Os pés no chão nos impedem de sonhar?

 

Quero um sonho emprestado

realizável, apenas, no absurdo da vida

Por isso, necessito que meus pés

me provem o contrário,

o próximo passo que a cabeça tenta impedir

E depois, sentir-me ridícula

por não tê-lo acreditado possível…

 

Quero tantas coisas sem importância,

que talvez precise asas…

Pois a sutileza não é daqui.

 

E quando já não der pé, tenho fé

que posso voar

O CORPO/ Parte I- Coração

•Agosto 25, 2009 • 2 Comentários

O CORPO

Parte I- Coração

Alessandra Amantea

 

Meu coração lateja o desejo

como relógio impresso de emoção

Sangra o relógio,

formando um caldo que não finda a sede

Quem se alimenta do próprio vinho?

Já não cabe no peito, o órgão oco que me rege vida

 

Os batimentos desencontram

a marcação do tempo

Sinto-o, então, mais presente que nunca:

Forte;

Quase dolorido;

Dominante sobre meus atos e inércias

O músculo não cala a verdade

escancarada na batida

 

Um coração cheio de vida e morte

Paixões e medos…

 

A bomba-relógio

que poe tudo a ganhar e perder

Dita amor e ódio

com coragem que a mente não ousa…

 

O coração cega o espírito

e o corpo segue junto

esse caminho sem meta

 

A frenesi rítmica dos passos

dos apaixonados insanos

não leva à lugar algum

e, ao mesmo tempo, ao único lugar que importa…

 

Meu coração é radical

por isso não acalma a alma

Por isso há de quebrar um dia

e ser tinta e letras…

 

Porém, o vinho profano do sangue derramado pela paixão

há de santificar-nos…

 

Quem se alimenta do próprio vinho?

A cor sagrada

•Agosto 17, 2009 • 2 Comentários

A cor sagrada

Alessandra Amantea

O amarelo que entrava pela janela da igreja

Não era o tom profano do palco

Não era o tom natural da manhã úmida

Nem o frio dourado da moeda de metal

 

Não era o tom louro que amarelava a cabeça

Nem o amarelo do hematoma quase curado

Não era o tom da urina

Tampouco o amarelo do campo de girassóis

 

Não era o amarelo de quem fingia sorrir a falta de graça

Não era o amarelo que coloria a mão do office-boy:

suas entregas amarelas…

 

Não era a raça amarela…

 

Um tom que não advertia atenção…

 

Não era o amarelo de Van Gogh

Tampouco de Klimt

Nem de fotografia antiga

 

Naquele fim de tarde,

todos os amarelos misturados num tom divino;

purificado

de tudo que era humano-

passou a fazer-se um tom Sagrado

do qual provável: único

Portanto, capaz apenas nas coisas além-mundo

Além-homem…

 

A cor sagrada

Consagrado tom,

 invadindo a tarde pela janela da casa do Pai…

Perda

•Agosto 12, 2009 • Deixe um comentário

Perda

Alessandra Amantea

 

De perdas conheço mais

Há na perda, porém,

Um ganho qualquer

que não alegra,

mas fortalece o leão…

Perdendo também se ganha…

Ganhando também se perde…

Duas faces da mesma moeda

 

Parte de mim se subtrai na perda

Até que um dia, não haja nada para faltar

Enquanto isso,

Inundo de tristeza,

Buscando retomar o fôlego

Que também perdi…

 

Afogada nas horas

Da existência vazia

Busco novamente submergir,

Mas dessa vez fui tão profundo

Que não encontro indícios de superfície

 

E se é perda de amor, pior…

 

Um dia ainda morro disso…

O sumiço da bolha de sabão

breve e sem bagagem…

Primavera

•Agosto 11, 2009 • Deixe um comentário

Primavera

Alessandra Amantea

 

A flor entorta

no afã do vento

Aflora o novo tempo

A primavera

Amarela

De hálito doce:

Que venha o próximo sabor da estação

 

Porque quando a cidade florescer

Preciso morrer de amor…

Nos braços que me servirão de caixão eterno

No corpo que sequer separa…

A madeira macia

Que me faz árvore

Que cria raiz

E suga-me do íntimo

Todo resto de vida…

 

Preciso morrer de amor

A sorte letal

da morte lenta de dois…

Beijos do Sol

•Agosto 4, 2009 • Deixe um comentário

Beijos do Sol

Alessandra Amantea

O sol beijava-me diariamente,

com sabor de novidade

Havia nos raios, entretanto

algo que eu reconhecia.

 

Dessa forma, entre uma manhã e outra,

no detalhe, perdia-se a marca da rotina

A única certeza que eu tinha

- além da condição de mortal-

era que a manhã me paria todos os dias…

 

E eu que já fui da boemia,

descubro na manhã, morada

 

Por maior e bela que fosse a lua,

somada a todas as estrelas

ainda assim, não despertaria em mim a claridade do sol

 

E se um dia o sol resolvesse mudar seu turno?

Noites com sol…

Dias com lua…

 

Então, eu dormiria de dia para despertar à noite,

reconhecendo o astro pai

que pincela de loiro até o que não há forma…

 

Como casa abandonada e vazia;

pelas frestas rachadas do meu corpo de madeira: entra a luz

Transformando o pó

em chamado de beleza sutil;

e o tiritar da madeira

num choro alegre…

 

Sutil,

sem alarde,

sequer estilo

É a beleza da manhã,

despida de conceito e arte

 

A renda mais bela,

tecida pela aranha,

visto-a na pele pálida;

quando busco no espelho a mesma beleza imperceptível

que me interessa mais que os grandes ornamentos …

 

Contraditória, é a beleza sutil da manhã

que desperta mais êxtase e dor

que  qualquer obra prima …